O jesus que eu nunca conheci

21 jan

Reconheço esse Jesus nas pinturas a óleo penduradas nas paredes de
concreto da igreja de minha infância. Contudo, quem o forjou traiu-se na
próxima frase: “Ninguém o viu sorrir”. Será que ele leu os mesmos
evangelhos que eu leio, documentos que não dizem nenhuma palavra
acerca da aparência física de Jesus, mas o descrevem realizando o seu
primeiro milagre em um casamento, dando apelidos divertidos a seus
discípulos e não sei como adquirindo a reputação de “comilão e bebedor de
vinho”? Quando pessoas piedosas criticaram seus discípulos, Jesus
respondeu: “Podem os convidados para o casamento jejuar enquanto está
com eles o noivo?”. De todas as imagens que poderia ter escolhido para si,
Jesus optou pela do noivo, cuja alegria contamina a todos os convidados do casamento.

Em contrapartida, os evangelhos apresentam um homem com tal
carisma, que o povo ficava sentado por três dias sem intervalo, sem comer,
apenas para ouvir suas palavras instigantes. Ele parece emocionado,
impulsivamente “movido pela compaixão” ou “cheio de piedade”. Os
evangelhos revelam uma cadeia das reações emotivas de Jesus: súbita
simpatia por uma pessoa leprosa, exuberância devido ao sucesso de seus
discípulos, um rasgo de raiva diante dos legalistas frios, tristeza por causa
de uma cidade não receptiva e depois aqueles gritos horríveis de angústia
no Getsêmani e na cruz. Tinha uma paciência quase inexaurível com os
indivíduos, mas não tinha paciência nenhuma com as instituições e com a
injustiça.

Ao contrário da maior parte dos homens que conheço, Jesus também
gostava de elogiar outras pessoas. Quando operava um milagre, não raro
desviava o crédito de volta para o contemplado: “A tua fé te salvou”.
Chamou Natanael “um verdadeiro israelita, em quem não há nada falso”.
De João Batista, disse que não havia nenhum homem maior nascido de
mulheres. Ao instável Pedro deu outro nome, “a rocha”. Quando uma
mulher assustada lhe ofereceu um extravagante ato de devoção, Jesus
defendeu-a contra as críticas e disse que a história de sua generosidade
seria lembrada sempre.

Jesus rapidamente estabeleceu intimidade com as pessoas que conhecia. Quer falando com uma mulher junto a um poço, quer com um líder religioso no jardim, quer com um pescador no lago, chegava imediatamente ao âmago da questão, e depois de rápidas palavras de conversação essas pessoas revelavam a Jesus seus segredos mais íntimos. As pessoas do seu tempo inclinavam-se a manter os rabinos e os “homens santos” a uma distância respeitosa, mas Jesus extraía delas algo mais, uma fome tão profunda que as pessoas se aglomeravam ao redor .

Ele foi a festas de casamento que duravam dias.
Deixava-se distrair por qualquer “joão-ninguém” que encontrasse, quer
uma mulher com hemorragia que timidamente lhe tocou o manto, quer um
mendigo cego que se tornou maçante. Dois de seus mais impressionantes
milagres (a ressurreição de Lázaro e a da filha de Jairo) aconteceram
porque ele chegou tarde demais para curar a pessoa doente.
Jesus foi “o homem dos outros”, numa excelente frase de
Bonhoeffer. Manteve-se livre — livre para os outros. Aceitava quase
qualquer convite para jantar, e por conseguinte nenhuma figura pública  tinha uma lista mais diversa de amigos, desde pessoas ricas, centuriões romanos e fariseus, até cobradores de impostos, prostitutas e vítimas da lepra. As pessoas gostavam de estar com Jesus; onde ele estava, havia alegria.

Por um lado, curava em reação espontânea à necessidade
humana: via uma pessoa sofrendo diante dele, sentia compaixão e a curava.
Nenhuma vez se esquivou de um pedido direto de ajuda. Por outro lado,
certamente não fazia propaganda de seus poderes. Condenou a “geração
má e adúltera” que vociferava pedindo sinais e, exatamente como fez no
deserto, resistiu a todas as tentações de dar espetáculos. Marcos registra
sete ocasiões isoladas em que Jesus instruiu uma pessoa que havia curado:
“Não conte a ninguém!”. Em regiões em que as pessoas não tinham fé, não
realizou milagres.

Certamente seu estilo tem pouco que ver com o dos modernos evangelistas de multidões, com suas tendas e estádios, suas equipes de reconhecimento, cartazes e campanhas de mala direta, suas apresentações realizadas eletronicamente. Seus pequenos bandos de seguidores, sem ter base permanente de operações, vagueavam de cidade em cidade sem uma estratégia muito discernível.

O grupo que Jesus liderava funcionava sem escritórios nem qualquer outra propriedade, e aparentemente sem diretoria, salvo um tesoureiro (Judas).

Financeiramente, parece, mal tinham o que comer. A fim de arranjar
dinheiro para pagar os impostos, Jesus enviou Pedro a pescar. Tomou
emprestada uma moeda para ressaltar uma verdade acerca de César e teve
de pedir emprestada uma jumenta na única vez em que optou por não
viajar a pé. Quando seus discípulos caminhavam pelos campos, colhiam
espigas dos grãos plantados para comer as sementes cruas, aproveitando-se
das leis mosaicas que levavam em consideração os pobres. Quando Jesus
se encontrava com pessoas influentes como Nicodemos ou o jovem
advogado rico, parece que nunca lhe ocorria que uma pessoa com dinheiro
e com influência pudesse ser de utilidade no futuro. Como Jesus se
sustentava? No Oriente Médio daquele tempo, os mestres viviam de ofertas
dos ouvintes gratos. Lucas frisa que certas mulheres curadas por Jesus —
mesmo a esposa do ministro das finanças de Herodes! — ajudavam a
prover-lhe o sustento

 

Philip Yancey –  trechos do cap 5

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