Livre arbítrio x Soberania

21 jan

Certas perguntas acerca das prioridades de Jesus vêm de imediato à mente. No topo da lista, as catástrofes naturais: se Jesus tinha o poder de curar enfermidades e de ressuscitar os mortos, por que não atacar alguns macroproblemas como os terremotos e os furacões, ou talvez todo o sinistro enxame de vírus mutantes que infestam a terra?

Os filósofos e os teólogos acusam muitas das doenças remanescentes
da terra de serem conseqüências da liberdade humana, o que suscita um
conjunto todo novo de perguntas. Será que gostamos mesmo de tanta
liberdade? Temos a liberdade de prejudicar e de matar uns aos outros, de
lutar em guerras mundiais, de dilapidar nosso planeta. Somos até mesmo
livres para desafiar a Deus, para viver sem restrições, como se o outro
mundo não existisse.

“Por que simplesmente não destruir o tentador, salvando a história humana do seu tormento maligno?”

Quando torno a olhar para as três tentações, vejo que Satanás propôs
uma melhoria atraente. Tentou Jesus na parte boa do ser humano, sem o
mal: saborear o gosto do pão sem se sujeitar às regras fixas da fome e da
agricultura, enfrentar riscos sem o perigo real, desfrutar da fama e do poder
sem a perspectiva de rejeição dolorosa — em suma: usar uma coroa, mas
não uma cruz. (A tentação a que Jesus resistiu, muitos de nós, seus
discípulos, ainda a desejamos.)

Seu valor encontra-se sobretudo no contraste que formam com os evangelhos reais, que revelam um Messias que não utilizou poderes miraculosos para se beneficiar. Começando com a tentação, Jesus mostrou relutância em torcer as regras da terra.

Como teria sido fácil para Jesus transformar aquelas pedras em pães comestíveis, da mesma forma que, mais tarde, ele transformaria água em vinho numa festa de casamento! E, afinal, por que não?

As autoridades romanas distribuíam pão de graça para promover o
reinado de César, e Jesus poderia fazer o mesmo para promover o
seu […]

Em suma, Satanás estava oferecendo a Jesus a oportunidade de ser o
Messias maravilhoso de quem pensamos precisar. Certamente, reconheço
na descrição de Muggeridge o Messias que penso desejar.
Desejamos tudo menos um Messias Sofredor — e é o que Jesus
também desejava, em certo nível.

Pregado na cruz, Jesus ouviria a última tentação repetida como um
motejo. Um criminoso zombou: “Se tu és o Cristo, salva-te a ti mesmo e a
nós!”. Os espectadores retomaram o grito: “Desça agora da cruz, e
creremos nele […] Livre-o agora, se de fato o ama”. Mas não houve
livramento, nem milagre, nem alívio, nem um caminho sem dor. Para Jesus
salvar os outros, bastante simples, não poderia salvar-se a si mesmo. Esse
fato ele devia conhecer quando enfrentou Satanás no deserto.

Minhas próprias tentações tendem a envolver vícios comuns como a
concupiscência e a ganância. Quando reflito nas tentações de Jesus,

entretanto, percebo que se centralizavam no seu motivo de vir à terra, seu
“estilo” de operação. Satanás estava, na realidade, balançando diante de
Jesus uma maneira rápida de realizar a sua missão. Ele poderia conquistar
as multidões criando alimento quando necessário e depois assumindo o
controle dos reinos do mundo, o tempo todo protegendo-se do perigo. “Por
que movimentar teus pés tão lentamente para o que é melhor?”

Será que Jesus não percebeu que o povo desejava mais do que tudo
adorar o que está estabelecido inquestionavelmente?

Ao resistir às tentações de Satanás de suprimir a liberdade humana,  Jesus tornou-se difícil demais de ser aceito. Sujeitou sua vantagem maior: o poder de compelir forçosamente à fé mas não o fazer. Infelizmente  a igreja reconheceu o erro e o corrigiu, e tem-se apoiado no milagre, e na autoridade desde então.

A tentação no deserto revela uma profunda diferença entre o poder
de Deus e o poder de Satanás. Satanás tem o poder de coagir, de estontear,
de forçar a obediência, de destruir. Os seres humanos aprenderam muito
desse poder, e os governos beberam fundo desse reservatório.

O poder de Satanás é externo e coercivo. O poder de Deus, em contrapartida, é interno e não é coercivo. “Não se pode escravizar o homem por meio de um milagre, e a fé necessária é gratuita, não fundamentada em milagre”. 

Tal poder pode parecer às vezes fraqueza. Em seu compromisso de transformar gentilmente de dentro para fora e em sua inexorável dependência da escolha humana, o poder de Deus parece uma espécie de abdicação.

mestre do universo se tornaria sua vítima, indefeso diante de um pelotão de soldados num jardim. Deus se fez fraco com um propósito: deixar que os seres humanos livremente escolhessem por si sós o que fazer com ele.  

Søren Kierkegaard escreveu sobre o leve toque de Deus: “A onipotência que pode colocar a sua mão fortemente sobre o mundo pode também tornar o seu toque tão leve que a criatura recebe independência”. Às vezes, concordo, desejaria que Deus usasse um toque mais pesado. Minha fé sofre com liberdade em demasia, com demasiadas tentações para descrer. Às vezes desejo que Deus me esmague, para vencer minhas dúvidas com a certeza, para me dar provas finais de sua existência e de seu interesse.

Também quero que Deus desempenhe papel mais ativo nos negócios
humanos. Se Deus tivesse apenas estendido a mão e retirado rapidamente
Saddam Hussein do trono, quantas vidas teriam sido salvas na Guerra do
Golfo? Se Deus tivesse feito o mesmo com Hitler, quantos judeus teriam
sido poupados? Por que Deus tem de “sentar sobre suas mãos”?

Quero também que Deus assuma um papel mais ativo em minha história pessoal. Quero respostas rápidas e espetaculares às minhas orações, cura para minhas enfermidades, proteção e segurança para os meus queridos. Quero um Deus sem ambigüidade, um Deus ao qual eu possa recorrer por amor de meus amigos incrédulos. Quando tenho esses pensamentos, reconheço em mim um eco tênue, abafado, do desafio que Satanás lançou a Jesus há dois mil anos. Deus resiste a essas tentações agora como Jesus resistiu àquelas na terra, estabelecendo um jeito mais lento, mais gentil.

Em vez de esmagar o poder do mal pela força divina; em vez de compelir a justiça e destruir os perversos; em vez de estabelecer a paz sobre a terra por meio de um príncipe perfeito; em vez de reunir os filhos de Jerusalém sob Suas asas, quer queiram, quer não, e salvá-los dos horrores que angustiavam.

— Ele deixa o mal operar à vontade enquanto existir —
contentou-se com os métodos lentos e desencorajadores de ajuda
essencial; tornando os homens bons; não apenas expulsando mas
controlando Satanás […]

Amar a justiça é fazê-la crescer, não é vingá-la […] Ele resistiu a
cada impulso de operar mais rapidamente para um bem interior. 

Os milagres que Satanás sugeriu, os sinais e as maravilhas que os fariseus exigiram, as provas irrefutáveis pelas quais anseio — nenhum deles ofereceria sério obstáculo a um Deus onipotente. Mais espantosa é a sua recusa de agir e de esmagar.

A terrível insistência de Deus na liberdade humana é tão absoluta que ele nos garantiu o poder de viver como se ele não existisse, de cuspir na sua face, de crucificá-lo. Tudo isso Jesus devia saber quando enfrentou a tentação no deserto, focalizando seu imenso poder na energia da restrição. Creio que Deus insiste em tal restrição porque nenhuma exibição pirotécnica de onipotência vai alcançar a reação que ele deseja. Embora o poder possa forçar a obediência, apenas o amor pode provocar a reação de amor, que é a única coisa que Deus deseja de nós, sendo a razão de nos ter criado. “Mas eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim”.

 

O jesus que eu nunca conheci – Philip Yancey – Trechos cap 4

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