Missão Ebola: “Me reinventei a marretadas!”

30 nov

Dançando num Centro de Ebola

Há alguma outra história de vida que te marcou?
Débora –
Todas me marcaram. Todas. Mas teve um homem que tentou sair do Centro à força. Um homem que já tinha perdido várias pessoas bem próximas, num curtíssimo período de tempo. Ele tinha pouquíssimos sintomas e poucas reações de ebola, mas era ebola positivo. Tinha recebido a visita de alguém da comunidade, durante o dia, que fez algum comentário. Depois disso, ele tentou sair de dentro do Centro à força.

Como?
Débora –
Ele tentou fugir correndo, por sorte no exato momento em que eu estava entrando para cuidar de uma outra pessoa. Eu perguntei para onde ele estava indo, do que precisava. E ele disse: “Eu tô precisando de uma… eu não posso falar, não posso falar”. E aí foram várias horas de estabilização emocional. Para produzir estabilização sem tocar em alguém, sem fazer contenção afetiva, é muito difícil. Você não pode sair correndo atrás dele, você está cheio de roupas, cheio de utensílios, não consegue se locomover com rapidez. A sua voz também não sai tão clara, porque você está mascarado. E é difícil se conectar com o outro assim. Nem conexão visual você consegue fazer, porque está de óculos. Mas deu, sabe? Deu para fazer a estabilização emocional, deu para produzir cuidado, deu para tentar fazer uma escuta dele. E o que me marcou muito foi o que ele disse várias vezes: “Eu tenho oito filhos, e eles não têm azeite”. Para mim, aquilo não fazia sentido. “Como assim? Do que você está falando? Explica melhor o que é não ter azeite”. E ele falou: “Mamãe, você sabe que aqui no Congo tudo o que a gente cozinha é com azeite de dendê. Eu tô aqui dentro desse lugar há mais de 10 dias. E eu tenho oito filhos. E um dos meus filhos é muito bebê. Tudo o que minha mulher tenta vender na feira é rejeitado porque eu tenho ebola. Então, ela não tem como cozinhar porque não tem condições de comprar azeite”. Perguntei quanto custava uma lata de azeite. E custava 400 francos congoleses, acho que menos de R$ 1. A dimensão dessa miséria é tão grande que aquelas pessoas não têm R$ 1. E o desespero dele era por não ter R$ 1 para comprar azeite e por causa disso sua família estava passando fome. Então a gente arrumou um trabalho para ele dentro do Centro, porque ele não tinha muitas reações nem sintomas. A gente levou para dentro um rádio pequeno, que era uma coisa de que ele gostava muito, e o trabalho dele era escutar a Rádio para nos contar as notícias da cidade, o que falavam sobre ebola e sobre os Médicos Sem Fronteiras. Isso era muito importante para nós, porque precisávamos saber quais eram os medos e as dúvidas para poder esclarecer a comunidade. Com as notícias que ele deu, passamos a organizar os programas de promoção da saúde. E, com esse emprego, ele podia sustentar a família dele do lado de fora. Ele ditava uma carta, o psicólogo local escrevia e lia para ele, para que ele pudesse conferir se estava tudo certo, e nós levávamos a carta para a mulher dele, junto com o azeite, o peixe etc. E gravávamos um vídeo desse momento, para mostrar a ele que ela recebia, que estava bem. Filmávamos os oito filhos, para que ele pudesse ver que estavam todos bem. E as crianças contavam coisas da rotina delas para ele. E assim ele não se sentia mais tão isolado. Quando a gente projetou o vídeo para ele foi muito bonito, porque toda a comunidade quis dizer alguma coisa para ele. E quando o pai da família dele levantou para fazer a fala para ele, ele levantou também. Num sinal de respeito, mas como se o pai estivesse vendo ele do outro lado. E o pai levantou as mãos, e ele levantou também. E aí, quando eles começaram a rezar, ele também começou a rezar. Cada vez que alguém acenava com a mão, ele acenava do outro lado. Foi tão bonito que, nesse dia, a gente estava recebendo a visita da coordenação da Espanha, e a coordenadora disse: “Como é que a gente não fez isso antes? Isso tem que ser reproduzido!”. E agora isso vai para os nossos manuais. Nas próximas epidemias a gente já vai ter o equipamento necessário para poder fazer a comunicação por imagem. Para algumas mães, a gente imprimiu a foto dos filhos bem grande, e elas foram montando o seu cantinho, cada uma do seu jeito. Foi muito legal, sabe, ver que você não precisa ficar isolado para isolar um vírus. Se isola o vírus, mas não a vida.

E ele sobreviveu?
Débora –
Sobreviveu. E quando a gente deu a notícia de que ele podia ir para casa, ele ficou tão feliz que começou a dançar. Só que ele não parava, ele pulava num pé só, com os braços para um lado, com os braços para o outro. Em vez de ligar o rádio dele nas notícias, ligou num outro canal, que tinha música. E ligou a todo volume e começou a dançar no meio do Centro. Aí os familiares, para quem a gente também tinha comprado um rádio, para que pudessem escutar as notícias no lado de fora, sintonizaram na mesma estação que ele, aumentaram o volume e também começaram a dançar. Foi uma cena muito bonita. Ele do lado de dentro, e os familiares do lado de fora. Nós todos num Centro de ebola – e dançando!

E aí ele se foi?
Débora –
Ele se foi. Fez todo o procedimento de desinfecção, ganhou roupa nova e depois virou nosso promotor de saúde. Voltou para casa vivo, com trabalho e um lugar social de grande respeito, porque alguém que sobrevive ao ebola tem um grande respeito depois. É como se Deus tivesse dado uma chance para aquela pessoa continuar. Como se ela subisse uma escala no nível social. Aquele velho pastor, por exemplo, que já era muito respeitado antes do ebola, depois de ter sobrevivido virou quase um santo.

http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2012/11/missao-ebola-me-reinventei-marretadas.html

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